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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ESPECIAL PADRE ZEZINHO.mp4 - Transcrição




Foi exaustivo, mas valeu a pena transcrever a entrevista que o meu colega jornalista, Ronaldo da Silva, fez ao Pe. Zezinho no programa da TV Canção Nova "Além da Notícia".

Confira:

Repórter Ronaldo da Silva: a você que acompanha a TV Canção Nova, nossa saudação e feliz ano novo, ainda!
Estamos de volta, direto de Brasília, com mais um Além da Notícia. Aqui, a gente está sempre tratando de temas preciosos, com convidados mais preciosos, ainda. Temas de atualidades importantíssimos. Hoje, trataremos de assuntos diversos, com o convidado muito especial. Sacerdote católico, cantor, pregador e, sobretudo, comunicador nato. Nós vamos conversar com alguém que marcou gerações inteiras do nosso povo brasileiro. Há 45 anos, ele entrou em nossas vidas e, hoje, o meu filinho de apenas 6 anos de idade canta uma de suas canções e pede que eu a repita sempre. “Amar como Jesus amou, cantar como Jesus cantou, falar como Jesus falou.”
Nós vamos conhecer hoje, Padre José Fernandes de Oliveira. O Padre Zezinho. 70 anos.
Mais de 1500 canções compostas, 300 títulos. Seja bem vindo, Pe. Zezinho!



Pe. Zezinho: É bom estar de volta. É bom ver você de novo. É bom estar em Brasília. É bom estar com a Canção Nova. É bom poder falar e conversar sobre temas que são importantes não pra mim, para a Igreja, não pra você, pra Igreja e, portanto, é importante para nós.

Repórter Ronaldo da Silva: eu só quero saudá-lo, aqui, e parabenizá-lo por ter feito parte de nossas vidas. Porque milhões de brasileiros, hoje, talvez o vêem pela primeira vez. Mas milhões de brasileiros já o conhecem há tanto tempo, por tanto tempo, por tanto bem que o senhor tem feito com suas canções que a gente não para de cantar. Com os escritos que a gente gosta de estar sempre lendo. E hoje o senhor está nos trazendo, também, um novo escrito: “De volta ao catolicismo – subsídios para uma catequese de atitudes.” O que o Padre Zezinho está falando hoje, neste livro?

Pe. Zezinho: Olha, significativamente, você disse duas vezes que alguns me verão pela primeira vez. Você sabe que isso não é acaso. É uma opção de vida que tomei quando eu estudava psicologia de massas nos Estados Unidos. Eu não sabia se seria conhecido, se seria famoso ou não. Eu fui aluno do professor Bachero, Dr. Bachero, que era discípulo de imediato de Mc Luhan. E ele chamava atenção nos cursos que frequentei, além de teologia, que a gente tem uma escolha: ou você se entrega totalmente ao marketing, ou você usa o marketing dentro do seu projeto. Então, quando voltei ao Brasil, eu tomei um cuidado muito grande em qualquer que televisão de eu aparecer quando eu quisesse e quando estivesse pronto pra dizer alguma coisa. Só aparecer só por aparecer, pra mim, pareceria holofotite aguda. Por isso que apareço pouco na televisão. Estou muito mais tempo envolvido em projetos como formar cantores, formar jornalistas, formar comunicadores. Faz trinta anos que eu dou aula de comunicação e preparar pessoas para a catequese. Eu mesmo escrevendo os meus livros. São mais de oitenta títulos de livros e esse que você acabou de mostrar “De volta ao catolicismo – subsídios para uma catequese de atitudes.” Mais um outro que já saiu também, que é “Um rosto para Jesus Cristo”, a cristologia, mais um terceiro que será de ecumenismo. É um projeto que durou dezesseis anos para escrever. O que é que eu queria? Mergulhado na pesquisa, nos livros eu queria achar a linguagem. Por isso, até que consagrei naquela canção que pedi a Deus, a graça de poder falar do jeito certo, na hora certa, para a pessoa certa. E a ideia era essa: achar a linguagem, que é a grande tortura das igrejas. Ou você fala demais, ou você fala de menos, ou você exagera nos sentimentos, ou exagera na razão. Esse equilíbrio, esse tempero que é uma graça, que vem do Espírito Santo, foi o que eu busquei. Então, esse livro levou dezesseis anos, os três. Enquanto eu escrevia outros. Por que? Eu queria uma linguagem que, quem não é habituado a ler, quem não tem formação acadêmica e quem não gosta de ler, passando os olhos, ele dissesse: nossa que gostoso! Eu quis escrever um livro gostoso, mas profundo.

Repórter Ronaldo da Silva: pois o senhor está de parabéns. O senhor conseguiu, de uma forma curta, cada tema que o senhor trata aqui. Temas de atualidade que interessa a todos nós, hoje, e temas que a gente não quer parar de ler e conhecer o próximo.

Pe. Zezinho: você, que é jornalista, percebeu logo. Porque o brasileiro não é acostumado a ler mais do que uma página e meia. Ele não aguenta, não está preparado. A escola não ensinou a isso. Agora começa. Então, os livros não são o forte do Brasil. Espero que seja um dia, porque as crianças estão lendo mais. Então, o brasileiro aguenta até uma página, vinte linhas, depois ele se distrai. Então, o que é que eu fiz? Escrevi vinte linhas, vinte e cinco, no máximo. Depois, uma coisa puxa a outra. Tipo novela: amanhã tem mais, como a novela. Então, eu escrevi um livro, estilo novela, mas com um conteúdo denso de catequese. Dá pra ser profundo e acessível.

Repórter Ronaldo da Silva: o senhor conseguiu e tenho certeza que, quem experimentar este livro aqui, não vai querer parar de ler o livro até o final, apesar de ser bem grosso.

Pe. Zezinho: seiscentas páginas. Os três, cada um tem quinhentas e oitenta, seiscentas páginas. Mas essa é a ideia, também. É algo que ele use o ano inteiro, o tempo todo e, quando ele quiser uma referência, ele vai lá e acha.

Repórter Ronaldo da Silva: Padre Zezinho, como é que tem sido a sua vida nesses últimos anos? O que o senhor tem feito? O senhor falou por alto. Exatamente o Padre Zezinho vive onde e o que faz?

Pe. Zezinho: deixa eu brincar, mas é sério o que estou fazendo: estou me preparando pra morrer.

Repórter Ronaldo da Silva: por que?

Pe. Zezinho: mas alguém me diz: como? Eu rezo, todo o dia, a Ave Maria. Rogai por nós pecadores agora, que sou um pecador agora. E eu quero que Maria me ajude a viver agora. E na hora de nossa morte, como eu não sei como é, e no Brasil a expectativa de vida é de setenta e dois, setenta e três... feliz de quem chega aos setenta e oito, oitenta. Quem chega aos setenta, tem mais que ficar curioso o que vai ser o céu. Porque aqui eu já conheço. Não tudo, mas sei das dores, violências, crueldades, roubos, corrupções, maldades. Sei também dos santos, dos bons, dos maravilhosos. Eu não sei o que há depois. Então, Jesus manda a gente viver preparado para a vida pro depois. Como eu estou mais perto do lado de lá do que do lado de cá, nesses últimos anos tenho me dedicado à contemplação, reflexão, estudo, oração e tentar entender isto que já vivi e isto que me será dado viver. E, enquanto isso, vou anotando e colocando a ascese do viver e do morrer e preparar-se para o céu. Porque Jesus Cristo fez kenosis, veio aqui. Agora eu quero ir pra lá. E, para que eu possa ir pra lá, faço bem o que sobrou, desse restinho de tempo que sobrou. Ou seja, de dez a quinze anos. Então eu brinco com as pessoas e elas perguntam “por que”. Gente, eu estou fazendo a coisa mais lógica que um cristão deve fazer: eu to curioso pra saber pra daqui vou estar há dez anos, ou talvez antes, como é a eternidade. Porque aqui eu sei, um pouco, como é. E isso já me ajudou a pensar e vai passar. E olha, eu não para aquele túmulo, não. Vai só o corpo. Eu já terei ido ao céu. Então, eu não vou ser enterrado, vai meu corpo. Eu quero ir bem e essa é a ideia do relacionamento com Deus, com o próximo, sem grandes vaidades, espero que não. E sem grandes ilusões, também espero que não. Quero viver como um rio e estar perto da foz.


Repórter Ronaldo da Silva: agora, quem o conhece, sabe que o senhor não para. Mesmo se preparando pra isso, o senhor não está parado não. Certo?

Pe. Zezinho: não é que o rio anda mais devagar quando chega perto da foz. Ele vai no mesmo ritmo, só que vai mais cheio. Essa é idéia. A gente tem que ir mais pleno e a plenitude você recebe com as leituras, o estudo, a contemplação, os documentos que a igreja vai colocando. Eu só tenho setenta anos, a igreja tem quase dois mil. Então, é claro, que ela tem mais a me dizer. E tudo isso dentro de um contexto. Depois vai saindo em canções. Minhas canções estão cada dia mais contemplativas, políticas, sociais, provocadoras. A vida é uma provocação.

Repórter Ronaldo da Silva: Então, o senhor continua compondo canções, escrevendo pra jornais, escrevendo livros e dando aulas também?

Pe. Zezinho: Eu só dou preleções agora. Eu dei trinta anos de aula. Agora, graças a Deus, a gente precisa renovar a faculdade. E um aluno muito competente pegou o meu lugar. Então, agora eu sou preletor. Eu dou algumas aulas, alguns cursos. Estou ligado à Faculdade Deoniana. Lá está o Padre Joãozinho também. Já não dou mais aula. Agora eu dou preleções. O que me dá mais tempo de pesquisar mais.


Repórter Ronaldo da Silva: e a gente falando desse livro aqui, a gente fala da vida atual. O senhor falou, agora a pouco, de violências, de injustiças, de corrupção. O senhor falou de dores, neste mundo de hoje. Como o Pe. Zezinho faz uma leitura de hoje, do nosso povo de hoje e como nosso povo está vivendo tudo isso e a sua fé?

Pe. Zezinho:
Eu acho que educar é preparar a pessoa para tomar decisões, escolher. Senão não é educação. Acho que educar é educar para a ação, educar para relações e educar para reações. O brasileiro em casa, a maioria deles, na escola, não foi educado para o diálogo. O que seria? A capacidade de preparar e de ponderar suas ações, medir. A capacidade de medir suas relações e a capacidade de medir as suas reações. Quando você não educa uma pessoa pra isso, você não criou um ser humano maduro. Eu ajo e sei porque ajo. Eu tenho relacionamentos, ações constantes e sei porque tenho e com quem, e porque. Não brinco de relações, nem afetivas nem sexuais, nem econômicas, que envolve o outro. Então, eu levo a sério. E reações: não tenho reações inusitadas, explosivas. Eu pondero as minhas reações. Se alguém chegar a isso, ele fez uma ascese da comunicação, que é o título do meu próximo livro. Então eu olho o Brasil de agora e vejo que é um país que não foi muito educado para ponderar. Ele engole qualquer marketing de governo, de igrejas, de comércio, de indústria que ele não está preparado para receber uma comunicação. Ele engole, ele não mastiga, ele não digere. Então, nós precisamos reeducar toda uma geração pra isso. Está aí o Twiter que não me deixa mentir. O twiter é a notícia não digerida, é um arroto. Ele só passa a ser notícia boa se o sujeito, antes de ir para o twiter, pensou naquilo que vai falar. A maioria das pessoas é instintiva, aconteceu e vai pro twiter. Tinha que meditar antes, senão é um arroto. É uma notícia má digerida e já colocada para os outros. Mas como o twiter tomou conta do mundo, isso quer dizer que o mundo não é de meditar no que fala. Não tem antes, é tudo durante e depois. E o depois ele não tá nem aí. Então, virou o mundo do durante. É o que o Jean Baudrillard fala no seu livro “A transparência do mal”, nós criamos nessa era de pós orgia que ele chama, a era da excrescência. Tudo o que eu tenho eu jogo pra fora, jogo pra fora... eu não assimilo primeiro. E então, nós perdemos a capacidade de refletir. E voltamos ao que Pio X, já em 1903 falava, antes do modo próprio, que as pessoas repetem frases e áreas e óperas, mas não entendem o que está fazendo. Criticava uma liturgia apressada que já se fazia na época. E naquela mesma época, em 1908, o Chesterton (G.K. Chesterton), no livro “Ortodoxia” dizia que o mundo estava praticando araquiria, o suicídio do pensamento. As pessoas não pensavam. Elas simplesmente reagiam e, por isso, não interagiam. É a sociedade de hoje. A mídia dominou, está a serviço do comércio, está a serviço do deus mercado, está a serviço da indústria, dos governos e das religiões, mas não está a serviço do indivíduo.

Repórter Ronaldo da Silva: deixa eu entrar, agora, num desafio enorme que é, pra nós igreja, que só agora no seu livro, também. A igreja está sabendo se comunicar com este mundo, sabendo usar a linguagem para ser entendida nesse mundo? Porque o que a gente tem percebido, lamentavelmente, é que a voz da Igreja tem sido rejeitada.

Pe. Zezinho:
Os documentos são bons. São especialistas que escrevem. Então, se você lê desde Medelin, Puebla, Santo Domingo, Aparecida você tem documentos precisos, escritos por gente inteligentíssima e acadêmica. O conteúdo é bom. Também, desde o Vaticano II, você pode começar com o Gaudium et Spes, Optatam Totius... é profundo isso. Não tem o que tirar nem por ali. Então, a igreja escreve bem e medita bem. Mas na hora de chegar ao povo não chega. Porque aquele que deveria levar ao povo, e você é jornalista sabe, seja o leigo ou o padre, ele não passa a doutrina e o pensar da Igreja. Trunca-se, no caminho, e a pessoa não recebe o que é pra receber. Nós não divulgamos. Às vezes, o padre divulga o livro dele exaustivamente, a canção dele exaustivamente e não tem tempo de falar com o Papa, que é o maior catequista nosso e que é o nosso porta voz, acabou de escrever uma trilogia: escreveu “Sal da Terra”, o outro não foi traduzido ainda, “Dio e IL Mondo”, e o terceiro, “Luz do Mundo”. Mas catequeses sólidas, profundas. O povo não sabe que existe porque o padre está muito preocupados em mostrar o próprio livro, o próprio cd e esquecem de mostrar o que os catequistas maiores estão dizendo, e os teólogos. Então, não chegam ao povo. Em outras palavras, a igreja é bem pensada, mas é mal divulgada.

Repórter Ronaldo da Silva: esta falha na comunicação é grave nos tempos de hoje. Porque nós temos um mundo que necessita ouvir uma boa comunicação daquilo que precisa chegar até ele.

Pe. Zezinho: é como se a pizza saísse boa, saborosa, rica de conteúdo do forno e, na hora da entrega, o entregador de pizza acrescentasse os seus sabores e entrega uma pizza deturpada. O entregador de pizza tem que entregar, aquela pizza, quando saiu do forno. E hoje estão interferindo tanto, por isso meu segundo livro “Um rosto para Jesus Cristo” tem lá o Corcovado pichado na capa. Quer dizer, qual é o rosto de Jesus Cristo? Foi tão pichado pelos pregadores das mais diversas igrejas, que você já não sabe quem era Jesus. Você sabe o Jesus de tal e tal igreja, de tal e tal pregador, de tal e tal padre. Mas o Jesus histórico? Onde é que Ele está? Não chegou ao povo. Quem era Jesus, de fato? E as conclusões sobre Jesus, também?
Então, eu brinco também, eu costumo brincar, mas é a pura verdade e acho que qualquer um assina embaixo: o problema não são as escrituras, são as leituras.

Repórter Ronaldo da Silva: Pe. Zezinho, o que pode salvar este nosso mundo com tanta gente desacreditada nele, pela violência que tem visto, pela corrupção que tem visto, pelo rumo das famílias que tem visto? O que pode salvar este nosso mundo? E como?

Pe. Zezinho: a ascese do pensar. Quem pensa mais, provavelmente, quando tomar decisões, toma decisões mais corretas. O instintivo, tanto na vida, no sexo, no trabalho, no dinheiro, no casamento, instintivo na fé, ele não pensa. Ele faz porque estão dizendo pra fazer, é a onda do momento, ele é surfista da última onda. Então, ele não vai mudar nada. Mas aquele que pensa, ele vai e ele vai fundo, e ele cria pensamento. Porque o pensamento não é como a água. Ele reproduz. Mas já, o outro, o instinto, ele não reproduz. Aquilo pra ele é instantâneo, é imediatista. Então, quem pensa, não é imediatista. E o reino de Deus não é imediatista. Ele é fruto de quem pensa.
No caminho, eu estava dizendo, quando vinha pra cá, estava dizendo para o Adécio: houve um tempo na minha vida que eu escolhi ser pensador. Eu gostava de Pascal (Blaise Pascal), o Descartes (René Decartes), fui introduzido a pensadores e sou apaixonados por livros. E aí eu brinquei, mas na verdade é o que eu faço: eu tinha uma escolha entre plantar repolhos, que você colhe dentro de algumas semanas, e plantar mangueiras e abacateiros, que demoram mas, quando colhe, colhe em grande quantidade e dá por cinquenta anos. Eu resolvi plantar abacateiros e mangueiras. O repolho eu deixei pra quem queria resultado na próxima estação. A mídia faz isso. Ela te convida e diz assim: se você plantar repolhos, daqui a algumas semanas, você vai ter um caminhão de repolhos, mas apodrece depressa e tem que vender logo. Ao passo que o outro demora, mas aí você pode colhendo aos poucos. Eu sou, eu quero ser plantador de abacate, plantador de mangueira, que demora pra colher, mas depois dura. E repolho eu prefiro não plantar. É efêmero. Se alguém fazer, tudo bem. Há outros que fazem. Então eu não preciso fazer. Eu não tenho uma comunicação imediatista.

Repórter Ronaldo da Silva: o que está acontecendo com os nossos católicos? Temos muitos bons católicos, mas nós temos uma grande quantidade de católicos que não estão assimilando a sua fé. Que apenas dizem ser, mas não a praticam, estão em desacordo com a sua igreja. Que processo é esse?

Pe. Zezinho: começa com as lideranças. O povo é o resultado das suas lideranças. Se os bispos não são corajosos, fortes e não tomam posição, depois de um tempo, o povo também não toma. Se os padres não são corajosos e fortes, e não tomam posição, o povo também não toma. Se a notícia e a fala do Papa não chega ao povo, o povo não sabe o que é ser católico. Se os documentos não chegam ao povo... quantos leram o último documento de Aparecida? Você é jornalista. Deveria faze uma pesquisa. De cada mil católicos, aqui em Brasília, quantos leram o documento de Aparecida? Diante de tanto, tem a opinião de todos os bispos da América Latina e do Caribe. E ele não sabe? Foi em 2007. Então, alguma coisa está errada porque nós não estamos ajudando o povo a refletir. Então o problema começa conosco. Além do que é a questão da fidelidade. O que tem de padre que escolheu o projeto pessoal, disse que o antigo inimigo da igreja era o PT (Partido dos Trabalhadores). Tudo o que era padre que saía era pra entrar no PT. Como o PT mostrou outro lado, não muito virgem de pureza, muitos se decepcionaram. Então, agora tem muito por causa do PP – Projeto Pessoal. Não estão querendo aceitar o projeto da Igreja. Cada um inventa o seu. E não há aquela unidade de trabalhar todos juntos por uma causa. Não há renúncia e ascese suficiente de dizer: o meu projeto não é importante, é o da diocese que é. É o da congregação que é. É o da Igreja. Eu não tenho projeto pessoal. Não vou criar nada mais novo. Eu tenho que ser muito profeta para criar alguma coisa nova. Eu não sou esse profeta. Se a pessoa acha que é, tudo bem. Nunca criei nada novo. Eu criei o novo dentro do novo. E é essa a idéia. A Igreja já tem, a congregação já tem. Eu quero oferecer uma renovação dentro do que já existe. Então, eu não criei as minhas comunidades. As que existem eu quero ajudá-las.

Repórter Ronaldo da Silva: imagino que tem muita gente, agora em casa, querendo ouvir o Padre Zezinho falar sobre isso: as nossas famílias estão sendo muito agredidas. Muitos matrimônios têm sido desfeitos. Muitos filhos têm sofrido com isso. Que leitura o Padre Zezinho faz desses fatos?

Pe. Zezinho: que é intencional. No tempo de Pio IX, 1870, o laicismo tinha tomado conta da Europa. A partir de 1848, manifesto comunista, e com os vários pensadores e as várias correntes de pensamento. Desde o marxismo que nascia, o capitalismo que nascia e até a correntes de pensamento de alma que, com Freud (Sigmund Freud), começava a vir a psicologia. Tudo foi naquela época e houve um distanciamento da sociedade pensadora da Igreja. Além do que, a Igreja perdeu os estados pontifícios e ficou reclusa no Vaticano com Pio IX e ele ficou em autodefesa. Depois veio Bento XV, que abriu a Igreja para o diálogo. Disse: não podemos ficar prisioneiros no Vaticano. Vamos vencer pelo pensamento, já que não temos mais nada do Estado. Aí veio um excelente, pena que ele é tão pouco lembrado. O Pio XI, que era um estadista de marca maior, advogado, preparado, e ele dialogou com o mundo inteiro. Tanto quando ele morreu, foi uma verdadeira apoteose, como foi com João Paulo II. Este homem quer diálogo! Veio gente inimiga pra vê-lo. Em 1939, se eu não me engano. Não é? Então a igreja, nesse período todo, teve que apresentar sua voz, o seu diálogo, porque ela entendeu que ela era uma das muitas. O laicismo tinha tomado conta de todos os países e o ateísmo em muitos outros. Aí, hoje, o quadro é o mesmo. A maioria dos governantes, hoje, são ateus. Ou o sistema que eles defendem é ateu. Eles toleram a religião, mas eles não são mais ligados à religião. A religião, se quiser sobreviver, tem que ser ligada a eles. Mas eles não dependem de nós. Se quiserem nos peitar, eles nos peitam. Eles têm a economia, o mercado e a mídia na mão. Então a Igreja vai ter que descobrir um jeito de chegar aos corações que, esse, o Estado não tem e nunca vai ter. O laicista, o materialista, nunca vai ter o coração do povo. Vai ter estômago do povo e vai ter um interesse imediatista do povo. Mas o coração não. Isso a Igreja pode ter. Este não é do povo, não é do governo e não é dos poderosos. Então, a Igreja vai ter que trabalhar os corações. Aí é que eu vejo um lugar para a Igreja. Que ela seja capaz de empolgar as pessoas pela gentileza, pela civilização do amor, e ela fala muito disso. Não é? E seja capaz de criar uma civilização da solidariedade. Porque o comunismo não deu certo, o capitalismo não deu certo, o liberalismo econômico, que já foi condenado por Pio XI. Os dois: o comunismo, o liberalismo. Dizendo que a solução era um solidarismo. A Igreja está começando a vencer porque eles todos eles estão vendo o fracasso. O capitalismo já fracassou em três, quatro anos. Foi o euro, na Europa, foram os americanos. Viram que não é tão duradouro como parecem. É um gato de sete fôlegos. Vai sobreviver, mas muito machucado. O comunismo está todo dilacerado. Quem sabe seja a hora, no mundo, pra um sistema humano, dê o nome que dê, com menos ditaduras e mais democracias? Está aí a Igreja que pode ajudar. Ela é mais democrática do que a maioria desses governos.

Repórter Ronaldo da Silva: o senhor percebeu que o nosso programa passou tão rápido? Nós temos um minuto e eu gostaria de pedir ao senhor uma palavra às nossas famílias. O que cabe a elas, nesse contexto todo, que acaba de nos apresentar?

Pe. Zezinho: sejam iluminadas e iluminadoras, perdoadas e perdoadoras, abençoadas e abençoadoras. Sejam como lua, que não tem luz própria, mas toda a noite passa pela Terra a luz que o sol lhe dá. Sejam como vela, que vai se derretendo, mas não perde a luz. Não percam a luz. Pais, não percam a autoridade. Católicos, não percam a capacidade de pensar, porque, senão, o nosso catolicismo acaba. Católicos pensadores, mais razão, menos emoção. Um pouco de emoção, sim. Muita razão. Aí podemos, quem sabe, modificar esse país. Porque o Brasil, hoje, é um país instintivo que raciocina pouco. Que os católicos, ao menos, aprendam isso. Porque esse é legado que a Igreja Católica pode dar ao mundo.

Repórter Ronaldo da Silva: Obrigado, Padre Zezinho, por todo o bem que senhor já nos fez, essas últimas décadas que o senhor esteve conosco, que continua conosco. Que Deus lhe dê muita vida, ainda, pra continuar fazendo tão bem essa missão e feliz 2012.

Pe. Zezinho: que vocês continuem com esse jornalismo bonito. Fiquem com Deus. E Deus nos abençoe!

2 comentários:

Rosângela Severo " Tia Preta " disse...

Parabéns pela iniciativa e tbm muito obrigada!
Um amigo me falou da entrevista e eu não havia conseguido assistir...
Graças a vc, agora posso e vou compartilhá-la com os devidos créditos.
Deus te abençoe!

http://www.youtube.com/watch?v=cbdd9b1YQ1E disse...

Oi, Rosângela "Tia Preta"!
Como jornalista, fico contente por saber que pude contribuir com a transcrição da entrevista do Pe. Zezinho.
Não é fácil, mas valeu a pena.
Que Deus a abençoe também!

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