E há falas que revelam o tamanho da responsabilidade que ainda falta compreender.
Quando uma pessoa comum fala, podemos discordar, argumentar e seguir a vida. Mas quando alguém recebe milhões de votos e passa a ocupar uma cadeira no Poder Legislativo, suas palavras deixam de ser apenas pessoais. Elas passam a carregar o peso de uma representação.
É por isso que determinadas falas não podem ser tratadas simplesmente como “opinião”.
Feminicídio não é uma narrativa criada por quem pensa diferente. Não é uma invenção ideológica. Não é uma palavra conveniente para alimentar disputa política. É um crime previsto na legislação brasileira e uma realidade que produz vítimas, órfãos, famílias destruídas e histórias interrompidas.
Podemos discutir causas, políticas públicas, estatísticas, conceitos e até discordar sobre caminhos. A democracia existe justamente para isso.
O que não deveria existir é a leviandade diante da dor alheia.
Há uma diferença entre provocar o debate e banalizar o sofrimento. Entre ser contundente e ser irresponsável. Entre exercer a liberdade de expressão e esquecer que toda liberdade também carrega consequências.
E talvez essa seja uma das maiores contradições do nosso tempo: vivemos uma época em que falar ficou muito fácil, mas pensar antes de falar parece ter se tornado um exercício cada vez mais raro.
Não escrevo isso para atacar uma pessoa. Escrevo para lembrar uma coisa que deveria ser óbvia: mandato não é salvo-conduto para dizer qualquer coisa.
Quem recebe a confiança de milhões de pessoas precisa entender que palavras também governam. Podem esclarecer ou confundir. Podem proteger ou ferir. Podem ampliar a consciência ou alimentar a ignorância.
E quando o assunto é a vida humana, barulho nunca deveria falar mais alto que a verdade.
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