Começamos o ano de 2026 e é inevitável deixar de fazer um balanço, de tirar lições das experiências vividas no ano anterior. Concorda? E tem lugares que potencializam nosso entendimento: a biblioteca. No prédio onde eu trabalho tem uma pequenina e não resisti dar uma conferida nas opções literárias disponíveis nas prateleiras.
Um livro de Richard Carlson chamou minha atenção e faço questão de compartilhar: "Não Faça Tempestade em Copo D'água... e Tudo na Vida São Copos D'água". Dois capítulos desse livro que eu li, aparentemente simples, foram suficientes para provocar uma pausa mais longa do que o previsto. "Faça alguma coisa legal por alguém e não conte a ninguém" e "Deixe a glória para os outros" não se apresentam como grandes revelações, mas como lembretes incômodos de algo que sabemos, e frequentemente esquecemos. A partir deles, nasce esta reflexão, mais como exercício de consciência do que como tentativa de ensinar.
Como prática jornalística, eu já partilhei tantas histórias boas aqui em meu blog, mas posso dizer que vivemos em um tempo em que até a bondade precisa ser comunicada. Se não é vista, registrada ou compartilhada, parece não ter acontecido. Nesse contexto, a generosidade corre o risco de perder sua natureza mais essencial: a de ser gratuita, silenciosa e suficiente em si mesma.
Há algo profundamente revelador no gesto que não pede testemunha. Quando fazemos algo genuinamente bom por alguém e escolhemos não contar, não divulgar, não esperar retorno, preservamos a plenitude da experiência. A alegria não se fragmenta em validações externas; ela permanece inteira, guardada, quase íntima.
O mesmo vale para a forma como lidamos com a atenção. O ego, essa palavra sempre vigilante nas minhas análises, tem dificuldade em permanecer fora do centro. Ele interrompe narrativas, disputa protagonismo, desloca o foco da escuta para a própria necessidade de reconhecimento. Em pequenas doses, isso parece inofensivo; porém, acumulado, cria distância, cansaço e ruído nas relações.
Deixar a glória para os outros não é um gesto de apagamento, mas de maturidade. É compreender que ouvir sem competir, celebrar sem se apropriar e sustentar o silêncio quando ele é necessário fortalece vínculos e cria ambientes mais seguros. Quando não roubamos a cena, oferecemos presença. E olha, presença, hoje, é um bem raro.
Curiosamente, ao abrir mão da atenção excessiva, algo se reorganiza internamente. A ansiedade diminui, a escuta se aprofunda, as relações ganham densidade. A vida deixa de ser uma sequência de disputas sutis por validação e passa a ser um espaço de partilha mais honesta.
Talvez seja isso que esses capítulos nos convidam a praticar: uma ética do gesto discreto, da palavra contida, da glória que não precisa ser nossa. No fim, a verdadeira grandeza não se impõe, não se anuncia e não se explica. Ela apenas acontece, quase sempre longe dos holofotes.